AINDA NO AVIÃO
Para quem é um refugiado, sou um
refugiado, assumi isso também, talvez a forma de viver seja diferente, nunca
vou saber. Talvez com outros seja diferente, mesmo vivendo o que eu vivi terão
outros sentimentos, outras marcas, outras transformações, uma dor diferente, ou
até uma sem dor. O que importa para mim agora, é como vi a vida, como a senti!
Não existe sofrimento maior ou menor, não existe concurso entre dores ou de
conquistas. Na essência, cada um tem o desafio da vitória sobre si mesmo.
Depende do tamanho das suas perdas e danos. E esse tamanho cada um dá conforme
quer, conforme se deixa atingir. Somos do tamanho que damos às nossas perdas e
danos e como diz a Juliette Binoche no filme, nunca seremos mais os mesmos
depois de cada perda. As minhas perdas eu as fiz grandes, outros fizeram
pequenas, outros nem as fizeram. É assim. Talvez as façamos do tamanho das
justificativas que precisamos dar e dos medos que não queremos vencer.
Engraçado, como as coisas
aconteceram. Fui vivendo, às vezes escolhendo outras nem tanto. Sendo
escolhido, empurrado, indo por aí, sendo levado pelos acontecimentos. Mais indo
do que escolhendo. Conforme as necessidades vamos nos equilibrando, vivendo e
aprendendo a viver. Elis, você estava certa. Fui andando por aí sem pensar
muito, mais instintivo do que racional, talvez por isso nem vi passar estes
anos. Vêm e vão-se empregos, lugares, colegas, pessoas, vontades e sentimentos.
Vêm e ficam os filhos e as experiências, os sentimentos. Sempre andando, sempre
buscando sem muito pensar nem avaliar. Sem se permitir parar, sem se permitir
vacilar, foi vencer ou vencer, não existia caminho de volta. Foi assim, tudo
muito rápido e intensivo, parece que foi ontem, mas já foram 40 anos. Sem pensar
muito, sem muitas escolhas às vezes.
Por isso a decisão veio
naturalmente, vou ter que ir a Portugal e a Angola. É preciso parar, avaliar,
desacelerar, optar. Já não precisa correr tanto. Só um pouco, existem ainda
muitos sonhos a realizar. Mas antes uma parada sentimental. Buscar de novo as
raízes, a história. Pronto, decidido. Pela
facilidade, Portugal foi a escolha. Começar pelo fim. Retornar às origens pelo
mesmo caminho. Um passo de cada vez.